segunda-feira, novembro 28, 2005

O Sonho Não Acabou


O alvorecer dos anos 80 foram pródigos em filmes sobre jovens vivendo o auge da sua geração. Em “O Sonho Não Acabou” (1982), recém-lançado em dvd, o título é significativo, pois sugere uma abordagem sentimental daquelas moças e rapazes, que no início da década, ainda não haviam experimentado o fervor cívico de preencher uma cédula eleitoral. Mais ainda, sugere suposta inexistência de um gap face aos pais ou primos mais velhos, idealistas, que cerca de uns três anos antes, slogans em punho, recepcionavam no Aeroporto do Galeão a anistia com a “volta do irmão do Henfil”.

Entender, portanto, os jovens de “O Sonho Não Acabou” – que na descampada Brasília daquele ancestral 1982 ainda estavam a um passo do abismo da ditadura e muito longe da “democracia”, criada com a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral em 1985 – é dar asas à imaginação e aceitar que nossos “tios” do presente são estranhos porque talvez tenham se criado em uma época muito estranha, quando, sem terem a ilusão utópica dos anos 70, ainda não conheciam a rebordosa consumista dos 80. Ou seja, eram como aquele brasileiro da piada, que morando no estrangeiro não aprendeu o idioma do local e esquecendo o português, ficou mudo.

Reza a lenda que a capital federal era um povoado acéfalo, inóspito, em que as figuraças políticas mantinham os filhos nos apartamentos funcionais, correndo ao Rio de Janeiro para badalações mais relevantes. A educação pelo abandono criou os reizinhos prepotentes e egoístas, resumidos na figura de Marcos Silveira (Miguel Falabella). Ele envolve-se com um candango, Danilo “Biela” (Chico Diaz), mecânico e traficante, residente em uma das cidades-satélite que abrigam a mão-de-obra – como fôra seu pai – que, vinte e poucos anos antes, construíra em concreto armado o melancólico projeto de Oscar Niemeyer.

Além de Marcos, freqüentam um cursinho pré-vestibular João (Daniel Dantas) – escritor em crise, apaixonado por Carol, atriz vivida por Louise Cardoso – e Ricardo (Lauro Corona), estagiário de rádio, fã de Big Boy e namorado de Lucinha (Lucélia Santos). O casal e João dividem um apartamento e acostumaram-se a atrasar o aluguel.

A atitude dos personagens, suas falas, seus trejeitos de corpo e suas idéias, em tudo podem soar hoje entre o ingênuo e o farsesco, mas isto deve-se em grande parte à caracterização marcante dos papéis. Lucinha, por exemplo, é uma pós-hippie – munida de farta peruca desgrenhada – que deixa a televisão ligada num canal fora do ar, na certeza de que uma hora alguma coisa legal “pintará” e transformará tudo.

Ressalte-se, por outro lado, que os aspectos que induzem ao estranhamento do público contemporâneo são souvenires de um tempo em que acreditava-se em ombreiras, cores cítricas e frases de efeito. “Tem duas coisas que eu não suporto: o dia de ontem e o dia de amanhã”, diz Marcos, horas depois de cometer o máximo da rebeldia pilotando um game de “Enduro” em um fliperama na Ceilândia.

Roteirizado por Jorge Duran, José Joffily e Sérgio Rezende – também diretor –, “O Sonho Não Acabou” traz momentos interessantes, como a metáfora explicativa do desbunde de Lucinha. Ao sair da casa dos pais, literalmente perde a cabeça, numa trucagem bem ao gosto da época. José Dummont aparece como o porteiro de voz inaudível, no mirante ao qual toda a turma se dirige para assistir ao nascer do sol. Reparem no caco de Dummont – acompanhado da gargalhada involuntária de Lucélia Santos – ao dizer que “é a lei”, mas seu nome verdadeiro é “Zé Dummont”.

O filme revela um clima de união de esforços, característica do cinema nacional, perceptível nas performances dos atores. Particularmente emocionante é a virada subseqüente à morte de Lucinha, quando Ricardo caminha em desespero nas celebrações do “Sete de Setembro”, contrapondo-se ao fausto um tanto ridículo dos cavalos que se soltam dos soldados e ao verde-oliva da cerimônia. Grita uma prece rouca nos estúdios da rádio – acompanhada pela belíssima trilha sonora de Paul de Castro, ex-membro dos Mutantes. “Alô, plano piloto, todos os satélites, Asa Sul, Leste e Oste, todas as estrelas e nuvens. Uma música para Lucinha, uma pessoa que fez meu coração pular, cantar, brincar. Uma pessoa que eu amei.”

Em outro ponto da narrativa, Carol e João acertam-se, apesar de o musical encabeçado por ela não agradar muito aos ouvidos do macambúzio escritor. Já Danilo Biela e Marcos Silveira curtem passatempos cada vez mais próximos um do outro, vão a Corumbá, compram drogas, sarram o sexo oposto, mas não explicitam nenhum envolvimento mútuo. Existe, entretanto, um fosso tão permamente e visível entre o barão e o jagunço que a separação e o confronto se mostram as únicas opções possíveis.

Quem já escutou as histórias contadas pelos expoentes do BRock 80, gente como Renato Russo e Dinho Ouro Preto, que cresceram em Brasília naqueles anos e deram inúmeras entrevistas sobre esse período específico da vida em TVs, livros e revistas, vai compreender com facilidade o universo de “O Sonho Não Acabou”. Estão aqui, por exemplo, a “Veraneio Vascaína”, citada na música homônima do Capital Inicial, além das gírias e pirações das gangues, tantas vezes ridicularizadas pela Legião Urbana.

Impossível não se misturar com o sexteto principal de amigos no frêmito, no ocaso, na brutalidade, nos momentos em que travam amizades fundantes, do período anterior à fase adulta. Some-se a este dado o impacto de o entorno ser desta cidade em que a vida nascia de pedra, na ausência de um romantismo depurador. Por tudo, o filme se inscreve como criação saborosa, ainda hoje pronta sem grandes traduções para o grande público, que pode e deve esgotar o lançamento do dvd sem sustos, para que venham outros.

2 comentários:

James Rafael disse...

Meus Parabéns, vc escreveu um excelente relato do filme!!! gosto muita da "originalidade" daquela época tão bem expressa nesse filme e, é claro, relembrar um dos grandes momentos no cinema do nosso saudoso ator Lauro Corona!

Andréa Ormond disse...

OI James, obrigada, o Lauro Corona está ótimo neste filme e dá realmente saudade dele, que morreu tão novo.