
Ozualdo Ribeiro Candeias faleceu aos 84 anos de idade, em São Paulo, no último dia 8 de fevereiro.
Difícil imaginá-lo preso a um leito de hospital, impossível cogitar a quantidade de impropérios que deve ter desferido a seu passado ou mesmo à ausência de seu futuro, principalmente se o considerarmos uma alma itinerante que -- a contragosto ou não -- tornou-se refúgio das expectativas sobre um determinado ideal cinematográfico.
Agricultor, motorista de caminhão, cafetão, crupiê, astronauta, todas as ocupações que teve e as que não teve somam-se à lenda urbana do realizador que, egresso do povo, retratou-o com conhecimento de causa polido à base de educação cinematográfica formal, já nos idos da década de 50 -- quando contava mais de 30 anos.
Esse contato direto com o meio acadêmico é possivelmente a primeira das diferenças sutis em relação a outro ícone do cinema nacional, José Mojica Marins -- com quem, aliás, dividiu os créditos da "Trilogia do Terror" (1968): Mojica dirigiu o episódio "Pesadelo Macabro"; Candeias, "O acordo"; Luiz Sérgio Person, "Procissão dos Mortos".
Quando rodou em 1974 "Caçada Sangrenta", primeiro filme produzido pela Dacar, de David Cardoso, Candeias via-se na posição pouco confortável de autor reverenciado, associado a estruturas minimalistas de produção -- os recursos financeiros eram parcos; as equipes, enxutas -- e à anti-linearidade narrativa. Não à toa, seu primeiro longa-metragem, "A Margem" (1967), passara a ser metonimicamente identificado com o advento do próprio Cinema Marginal.
Espectadores mais atentos o notarão, ainda, na faceta de ator -- pontas em "O Bandido da Luz Vermelha" (1968) e "O Ritual dos Sádicos" (1969) -- ou na equipe de produção de filmes atípicos a seu ethos paticular -- "O Quarto" (1968), de Rubem Biáfora; "Agnaldo, Perigo à Vista" (1969), comédia estrelada por Agnaldo Rayol, secundada por David Cardoso.
Apesar de improvável, a presença na picardia lollipop de "Agnaldo, Perigo À Vista" possibilitou uma parceria entre Candeias e Cardoso que viria a ser retomada em "A Herança" (1971) -- dirigida por Candeias, uma subversão do "Hamlet" shakesperiano, com o galã no papel de Omleto.
A dupla reencontra-se três anos mais tarde, a pedido de David, então cabeça da Dacar Produções. E se considerarmos o começo da Dacar -- com muito de brasilidade e encantamento pelo poder, numa tônica da gestão cultural no país --, os detalhes vistos acima e nem tanto os aspectos estéticos do filme em si, "Caçada Sangrenta" alcança fácil o status de cult.
Suposta ode ao estado natal de Cardoso, Mato Grosso, "Caçada Sangrenta" foi financiado grande parte por um belo patrocínio: através de amigos em comum, David contactou o governador José Fragelli, conseguiu uma audiência, prometeu a exposição das belezas naturais do pantanal e afins, e dali por diante bastou pouco tempo para terem às mãos, importada e tinindo, uma Arriflex novinha em folha.
A pobre coitada, sem saber, acabou sendo responsável por colocar no ar mais de cinco minutos seguidos de noticiário sobre a Transpantaneira, o Brasil grande, desfile de Sete de Setembro com direito a poster do General Garrastazu Médici, além do progresso em Corumbá e Ponta Porã, tudo em um tom de triunfalismo que deve ter "desagradado" -- para não usarmos outro termo mais incisivo -- o exigente Candeias.
E dessa disparidade entre uma concepção "autenticamente" candeística e outra "autenticamente" voltada para garantir nas bilheterias o retorno dos investimentos da Dacar e dos co-produtores (Gilberto Adrien e José Eduardo Rolim), o filme torna-se manco, preso pelas pernas, com momentos raros de inventividade.
Neco (David Cardoso), suspeito do assassinato de uma ex-amante, é o easy-rider que foge de São Paulo após se envolver com uma mecenas morta brutalmente por um amigo. Com a maleta cheia de dinheiro, cruza o interior matogrossense, distribui tapas, pancadas, se enrosca com mocinhas liberadas, até que na maré de azar acaba encontrando um triste fim.
Também autor do argumento e do roteiro, a impressão que se tem é a de que em determinado momento Candeias simplesmente decidiu deixar o barco correr solto e aproveitar, com o frêmito beatnik de sempre, a oportunidade de viajar pelo Brasil Central. Mesmo sem a observação do material bruto em si, os depoimentos dos envolvidos deixam clara essa combustão entre perspectivas diferentes que acabaram prejudicando a construção do filme.
Cite-se a costura rápida no início -- ainda no ambiente urbano de São Paulo, em que o diretor sentia-se mais à vontade --; o senso de humor aqui e ali -- o nome de Pedro Rovái aparece na caderneta de telefone do protagonista --; e, de resto, esporadicamente Candeias dava o ar da graça: as cenas de luta tentam fugir do bom-mocismo -- há chutes abaixo da linha da cintura -- e angulações constroem quadros que o público mais ortodoxo do "Amaral Netto Repórter" não acharia muito agradável.
Existem momentos, porém, em que Neco se aproxima por segundos de um simulacro de "El Topo"; e nestes instantes as andanças a cavalo previsíveis tentam demonstrar a solidão e a farsa do protagonista.
Passados mais de trinta anos, temos ao fim a constatação de que Candeias dirigiria apenas outros cinco longa-metragens -- "A Opção" ou "As Rosas da Estrada" (1981), "Manelão, o Caçador de Orelhas" (1982); "A Freira e a Tortura" (1983), novamente com Cardoso; "As Belas da Billings" e "O Vigilante" (1993) -- e, no total, onze curtas.
Avesso às badalações de praxe, trancou consigo uma fração considerável de nossa identidade fílmica. Silenciosa e feérica, sempre à espera de um próximo encontro com as telas. Reencontro desta vez frustrado, por nunca mais vir.
