segunda-feira, abril 13, 2009

Profissão Mulher


As estudantes universitárias brasileiras costumam adorar a escritora Márcia Denser assim como adoram Clarice Lispector, Ana Cristina César e Adélia Prado. Essas moças com certeza nem imaginam que, em 1982, Denser serviu de inspiração para aquilo que seus professores chamam, quase sempre horrorizados, de pornochanchada.

Não que "Profissão Mulher" -- baseado no livro de Denser, "O Animal dos Motéis" -- seja de fato uma pornochanchada clássica, no estilo consagrado por Carlo Mossy e David Cardoso. Mas poucos diferem alhos e bugalhos da produção comercial brasileira dos anos 70 e 80, ao ponto de saberem que o produtor e diretor Cláudio Cunha foi na realidade um sofisticadíssimo cronista de costumes.

Sempre antenado, de orelhas em pé, Cunha descobriu o sucesso de crítica -- em 1983 Paulo Francis citaria Márcia Denser como "a melhor escritora do Brasil" -- lançado no ano anterior e resolveu adaptá-lo ao cinema. O desafio de intercalar contos poderia ter virado rotineiro filme de episódios, mas aproveitou-se o mote de uma simpática agência de propaganda, unindo as quatro protagonistas em um meio comum.

As modelos Sandra (Wilma Dias) e Luiza (Simone Carvalho), a diretora de criação Natália (Patrícia Scalvi) e a secretária Vera (Lady Francisco) são tudo aquilo que o roteiro precisa para sugerir que o feminino é um delicado e turbulento ofício. Não querendo deixar dúvidas, o próprio diretor abre a história tecendo ilações sociológicas enquanto folheia, dentre outras, "Da Solidão à Plenitude Humana" -- obra do místico indiano Jiddu Krishnamurti.

Em seguida os causos se sucedem, tendo a agência como pano de fundo. Apesar de bastante identificado com a Boca do Lixo, Cláudio Cunha adorava filmar no Rio de Janeiro, e localiza o escritório em plena Av. Rio Branco. É o último dia do ano e os funcionários confraternizam de "amigo secreto" e fofocam. Os diálogos, escritos por paulistanos, erram ao chamar de "amigo secreto" a brincadeira que no Rio é geralmente conhecida como "amigo oculto".

Natália, diretora de criação, será a última a sair da agência, tonta à procura de lugar para beber. Entra na tradicional Casa Simpatia (Av. Rio Branco, 92), enxuga o estoque de vodka e, em meio a flashbacks amargos, conhece um representante de vendas (Otávio Augusto), com quem passa a noite. Na manhã seguinte, meio zonzos, dão um pulo até a Praça Mahatma Ghandi e impelido por Natália a transarem na via pública, o homem falha. Vingando-se da opressão e da estupidez masculina, a publicitária ri de se acabar.

Luiza aparece em uma festa, com o namorado (Mário Cardoso) e os manda-chuvas da agência, Telmo (Cláudio Marzo) e Neusa (a cantora Marlene, sim, a "Preferida da Aeronáutica"). Provando que sempre foi superior à Emilinha, Neusa arrasta todo mundo para seu apartamento e seduz Luiza e o namorado. Confusa -- eu também ficaria, se Marlene em pessoa me agarrasse -- Luiza foge e busca consolo em Telmo, que dormia no sofá.

A terceira história, baseada no conto "Hell's Angels", talvez seja a melhor. Sandra Stewart (Wilma Dias), modelo de sucesso, desfila no salão de convenções do falecido Hotel Nacional e tem horror ao maquiador fresco (Fernando Reski). Acaba de completar trinta anos, ganhando bolo e homenagens na agência. Perceba-se que não há qualquer nexo temporal, pula-se do réveillon para outra festa e em seguida para uma adiante, a do aniversário de Sandra. Ela está aflita com a idade e, partindo para uma sessão no analista, conhece um motoqueiro de dezenove anos, chamado Robi. Desabafa com o analista (Fábio Sabag) o sentido fútil de sua existência, a discreta homofobia -- mas uma posterior ida ao motel com o rapazinho aparentemente a conduz ao amor, ao gostar íntimo de alguém.

Nesse meio tempo, a secretária Vera é assaltada no ônibus, chega em casa nervosa e dá de cara com a sobrinha Patrícia (Márcia Porto), arrumando-se para sair. Vera é o tipo de pessoa sofredora, subserviente, desprezada no lar e no trabalho. Esconde o bizarro segredo de masturbar-se com água fervendo, enquanto a sobrinha vive a coisa real em inferninhos. Em um destes Patrícia acaba conhecendo Telmo, que devia estar indo esfriar a cabeça de Luiza, e os dois parodiam Burt Lancaster e Deborah Kerr na areia da praia, quando o dia amanhece.

O final do rocambole não importa. Natália e Luiza chegam a ensaiar um tête-à-tête lésbico, onde a modelo parece mais inteligente que a diretora de criação, mas o encontro de almas não evolui além de beijinhos e banho na hidromassagem. A dinâmica e as locações são muito parecidas com as de "Karina, Objeto do Prazer", de Jean Garrett; ambos da "Cláudio Cunha - Cinema & Arte", passam a impressão de que um requentou o outro, ou era tara.

"Profissão Mulher" ficou meses preso na censura e faliu o produtor e diretor. Não é de se espantar, pois Cunha fazia tramas populares na fronteira da inquietação intelectual, muitas vezes em um híbrido filosófico e sensacionalista. Entendê-lo só parece simples aos catedráticos preconceituosos, mas um dia até suas pupilas vão descobrir que por trás das bilheterias ocultava-se um questionador, um gauche, tão importante para o cinema quanto Márcia Denser foi para a literatura naquela década de 80.

(in Zingu! #30, Abril de 2009)

11 comentários:

Sergio Marcio disse...

Mais um filme que eu deveria ter visto e não vi. Vou procurar esse título pra poder conferir, vamos ver se dou sorte.

Andréa, acho que é a primeira vez que comento aqui, mas teu blog pra mim é referência faz tempo. Sou fã mesmo, parabéns e obrigado pelas entrevistas e textos tão bons.

Fofão disse...

Sou macaco de auditório de Cunha. Uma grande frustração é não conseguir uma cópia de "Snuff" para assistir. "Profissão" foi o primeiro dele que vi.
É duro acreditar que Simone, a musa/esposa do diretor, tenha virado pastora.
Valeu pela indicação dessa Márcia Denser, Andrea. Vou procurar.

Renato Félix disse...

Andrea, sensacional este seu blog! Cheguei aqui fazendo uma pesquisa sobbre o Fregolente e me deparei com este texto inteligente, saboroso e com informações curiosas e valiosas sobre o cinema brasileiro. Já estou linkando no meu. Se quiser, pode pesquisar lá que você vai encontrar uma entrevista bacana com o Walter Lima Jr.

Rafael Ribeiro, o Lusitano disse...

Um filme espetacular do meu segundo cineasta brasileiro preferido (o primeiro, claro é JOSÉ MOJICA MARINS). O filme é relativamente inferior a outros do Cunha, mas não deixa de ser uma boa pedida. E, clar, só é inferior a sua crônica, brilhante como sempre. Aos amigos, deixo uma sugestão: o próprio Cunha vende seus filmes através de seu site oficial (www.claudiocunhaproducoes.com.br). Já comprei todos e, na minha opinião, o Amada Amante é o melhor de todos.

Matheus Trunk disse...

Oi Andrea. Este é mais um excelente texto seu sobre um belo belo do grande Cláudio Cunha.

Adilson Marcelino disse...

Querida,
Já tinha lido lá na Zingu! e torno a ler com prazer aqui.
Gosto muito desse filme.
Bjs

Unknown disse...

Desculpe falar de um outro filme nesse comentário, mas poderia me dizer onde consigo achar o filme "Eros, o Deus do Amor", do Walter H. Khouri? Desde já, obrigado.

Andrea Ormond disse...

Confira, Sergio. O poster do filme engana, o conteúdo é bem mais interessante. Obrigada pelos elogios, um grande abraço!

Fofão, se vc gosta de literatura à la paulista, dos anos 80, a Denser é uma bela pedida. Essa história da Simone é surreal mesmo, a irmã dela, Suzane virou pilota de F-3...

Obrigada, Renato. Há informações sobre o Fregolente especialmente no "Gargalhada Final", do Xavier de Oliveira. Vou ler a entrevista do Walter Lima Jr. com calma, realmente parece bem bacana. Abraços

Rafael, boa indicação do site do Claudio Cunha. Quem quiser achar os filmes, já sabe aonde está a fonte.

Oi, Matheus, tb gosto muito do "Profissão Mulher", um filme bastante envolvente.

Adilson, o filme mereceu um repeteco aqui no blog. Beijos, querido.

Alcemar, o "Eros" foi lançado em vhs, e raramente é visto na tv a cabo. Sobra ficar atento à programação mesmo, não tem jeito...

Anônimo disse...

Eu participei deste filme fazendo parte do elenco de apoio; era uma das modelos da agência. Fiz parte da cena da troca dos presentes de amigo secreto, inclusive tve até um close meu, onde fiquei super orgulhosa quando vi no cinema.
Foi muito engraçado quando fui apresentada ao Claudio Cunha, pois me Chamo Claudia Cunha e na época ele ficou bastante curioso para me conhecer por causa dos nossos nomes. Parabéns pela divulgação desses trabalhos.
Claudia Cunha

eduardo vieira disse...

eu amo esse filme e foi muito engraçado porque eu tinha lido o conto da Denser, da boneca e qdo vi não acreditei...havia pego do meio o filme, depois vi que era adaptação ...mas a cena dela com o terapeuta é muito engraçada...já a do motel eu gosto bem mais.
Também adoro a Patricia Scalvi nesse filme..é ma baita atriz que nunca foi muito aproveitada em outros veículos, não? parabéns, estou adorando o blog..

Michael Carvalho Silva disse...

Filme clássico do cinema nacional feito sobretudo para aproveitar a fama da estonteante Simone Carvalho como símbolo sexual sem contar também que o moreno e saudoso ator de cinema brasileiro Roberto Miranda tinha um corpo tão sensual e estonteante da cabeça aos pés que já era muito mais excitante sozinho em suas próprias cenas de nudez frontais e dorsais do que em suas costumeiras cenas de sexo com outros atores e atrizes famosos também.