quarta-feira, abril 12, 2006

Bete Balanço


Se tanta gente acredita que os anos 80 valeram a pena, “Bete Balanço” (1984) merecia ser relançado em dvd com edição caprichada.

Amado na época do seu lançamento pelo público sedento em consumir rock brasileiro na era pré-MTV, posteriormente ficou conhecido como a estréia bombástica de Débora Bloch no cinema – atriz até então acostumada aos papéis na tv, como na novela “Sol de Verão”. Hoje em dia, salvando-nos o distanciamento histórico, pode ser lembrado como o primeiro filme da trilogia dirigida por Lael Rodrigues – falecido em 1989 –, com a safra oitentista do rock nacional.

“Bete Balanço”, “Rock Estrela” (1986) e “Rádio Pirata” (1987), os três filmes de Lael, representaram para seu tempo a mesma coisa que os filmes de Roberto Carlos representaram para a Jovem Guarda. Ultra-datados, ultra-ingênuos, podem soar também ultra-ridículos quando vistos sem a tolerância carinhosa ou a nostalgia desmedida daqueles que viveram (ou sonharam em viver) aquelas tardes de 1984. Um 1984 carioca, cheio de juventude, praia e o sonho de montar uma banda para ser famosa e “levar todos os gatinhos para a cama”, como dizia a canção das Metralhatxecas, parte integrante da trilha-sonora campeã de vendas.

Jabás do jeans Inega, do carro em formato de tênis da Olympikus, do posto de gasolina Ypiranga, convivem com pochetes, mullets, piscadelas, ruídos e dancinhas pretensiosas, que exacerbam as coreografias no estilo “Chorus Line”. Por sinal, atenção no início do filme: Andréa Beltrão, tal qual uma coadjuvante em “Cats”, saltita ao lado de La Bloch e dançarinos, empunhando bandana, maquiagem pesada e roupas em tom cítrico.

Mas não bastasse esse deleite arqueológico, “Bete Balanço” apresenta na outra face da moeda – na primeira, a super-exposição de Bloch, protagonista em tempo integral –, a imagem calcada em Cazuza e no Barão Vermelho, compositores do hit homônimo. A banda está de tal forma associada ao filme que os músicos inclusive atuam – há a cena clássica na praia de Ipanema, todos sentados em círculo – e servem de gancho para a trama: após ver Cazuza em um show na tv, Bete copia o número e o encena em uma boate da cidade mineira de Governador Valladares, cidade da qual a menina interiorana, recém-aprovada no vestibular, foge tentando seguir carreira artística no Rio.

Prestes a completar 18 anos, Bete deixa Valladares, a segurança de uma futuro tranqüilo, com marido e filhos, e vai parar na casa de Paulinho (Diogo Vilela) – um amigo homossexual, viciado nos videogames Odissey. De início, Bete caça um produtor, que lhe prometera uma chance. Encurrala-o em um canto e eis que marcam para o dia seguinte um almoço no restaurante Sol e Mar – na época famoso pelo chiquê; em 1988, o ponto de saída para a trágica excursão do Bateau Mouche.

O produtor lhe dá um bolo e Bete conhece a personagem de Maria Zilda, ricaça que oferece entre indiretas bastante diretas algo que pudesse sustentar a coitada faminta, sem lugar para dormir. A mansão de Zilda é enorme, a piscina idem, mas a expectativa por um bom sexo lésbico na tela é frustrada. A tomada corta na hora certa e trocam apenas um selinho rápido, na típica organização pós-coito: duas moças sorrindo, um lençol na altura dos seios e uma delas indo embora.

Em seguida, no estilo cabeça feita de “o lesbianismo é só uma parte, não o todo”, Bete conhece Rodrigo (Lauro Corona) – fotógrafo que registra a agressão a meninos de rua, presenciada pela quase-estrela –, e tem com ele a versão hetero do romance; esta sim, demonstrada com exuberância de detalhes.

Por insistência de Rodrigo, que encarna o padrão de jovem estourado e justo, Bete assina contrato com um tycoon (Hugo Carvana). O rapaz invade o estúdio de gravação tremulando uma Basf-60 no ar, a mesma fita cassete que conterá a performance genial da namorada que a esta altura já estava viajando para Valladares, desiludida, “querendo dar um tempo”.

O final feliz para o casal chega no modelo de um esquete que lembra os comerciais de cigarros nos anos 80. O filme ganha um tom de fantasia, surge a zona portuária como cenário e a cantora ascende ao estrelato com um nova série de coreografias, soltando a voz pela derradeira vez.

Decisão um tanto quanto equivocada, Bloch não foi dublada em momento algum na filmagem. Mas quem em 1984 se importaria? O público entrava na sala escura “a fim de curtir um som” e de literalmente ver a música. Neste sentido, a mixagem de Roberto de Carvalho ressalta o carisma das gravações e o trabalho “vídeo-clíptico” de Lael Rodrigues – produtor de “J. S. Brown, O Último Grande Herói” e diretor de produção de “Rio Babilônia” –, aumenta a graça dos 74 minutos desta pérola, que encantou a infância e a adolescência dos trintões e quarentões de 2006.

8 comentários:

Tobey disse...

Taí um filme que ainda não conheço. Seu texto é muito animador.

fernando disse...

Andréa, quanto tempo!! que saudade do seu blogue!! Não tenho visitado muito porque tenho trabalhando feito um camelo, mas o seu texto sobre SP SOCIEDADE ANÔNIMA é esplendoroso, e de BETE BALANÇO também, apesar de não gostar deste último, realmente você me abriu os olhos. E soube, através do MONDO PAURA, que você vai publicar um livro. Parabéns! Avise-me! Abraço e boa páscoa!

dr_lorax disse...

tempão que não passava por aqui,muito bom seu texto,fiquei na maior pilha de rever...como é possível não terem lançado o dvd ainda?otro dia revi na tv o Garota Dourada,comédia pura,o elenco então,surreal...

Smartt disse...

Excelente este seu blog.

Vou fazer um comentário sobre ele no meu próprio blog, o Sala Especial (http://guinnear-pig.blogspot.com/).

Andréa Ormond disse...

Bete Balanço dá pra ver sem medo, Tobey. A hora do Diogo Vilela jogando Odissey, com a música de fundo, é antológica.

Oi Fernando! Tempão mesmo, como é que andam as coisas? Por aqui tb estou numa correria total, por isso que tenho atualizado o blog com menos frequência :) O negócio é ver o Bete Balanço relaxado mesmo, sem esperar grandes vôos. E obrigada!! Aviso sim, pode deixar :) Já que a páscoa passou, vamos ver se a gente pelo menos aproveita o feriadão dessa semana :)

Oi Lorax, voltou! acredita que eu revi o Garota Dourada faz pouco tempo? O Menino do Rio era mais direto, não tinha as firulas do Garota Dourada, que é muito forçado às vezes. Já poderia ter saído o dvd do Bete, a trilha sonora vende feito água.

Smartt, muito obrigada. Quanto mais gente falando do cinema nacional, melhor. Gostei do título do seu blog, Sala Especial. Ficou perfeito :)

Barão Ricardo Lhkz disse...

Bete Balanço é a cara do rock brasileiro no início da década de 80. Uma trama que prende sua atenção, com elenco bem escolhido.

Ricardo Barão
http://baraolhkz.blogspot.com/

Um abraço, adorei suas críticas!

AlexMagnus_ disse...

Me amarrei neste filme. A unica pena, como o texto mesmo diz, é que a voz da Deborah seja pessima, verdadeiramente INSUPORTAVEL cantando.

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu vi este filme em tela grande na época do lançamento e adorei,talvez por ser jovem e a tela ser grande mesmo,isso ajuda e muito.