segunda-feira, agosto 04, 2014

Um Livro Inédito



Eu poderia dizer muitas coisas a respeito de tudo o que escrevi sobre cinema nos últimos nove anos. Poderia dizer que acredito ter analisado nossa filmografia de modo bastante original e gerado uma série de imitadores (alguns bons, outros diluidores daquilo que acreditam ser uma forma de pensar), além de ter dado origem a publicações curiosas e cativantes como a revista Zingu!  que veio crescendo número a número, de editor a editor, ao ponto de produzirmos dossiês verdadeiramente históricos, como o dedicado a Walter Hugo Khouri (2011) e outros.

Porém todas essas afirmações  somadas ao meu próprio temperamento discreto, virginiano  servem apenas para esclarecer um fato: o "Estranho Encontro" é um espaço que jorra textos, que expande idéias de forma operante e organizada. Ainda mais no Brasil, onde a palavra "operância" nunca vem fácil. Quase sempre é acompanhada de uma pré-necessidade de "aparecer", "fazer fama". 

Na verdade, "operância" é ser. Existimos porque trabalhamos. O trabalho não é um meio carnavalesco, nem um atalho esperto. O trabalho é o fim em si. Logo, o fim em si deste blog era falar de cinema brasileiro, expôr minhas idéias, iluminá-las. 

Se o blog vai continuar, ou não, é algo que preciso decidir com calma. Tenho um livro inédito cobrindo textos desde o cinema mudo até o século XXI. Passei três anos escrevendo e não consegui até agora uma editora que se interesse em lançá-lo, sem que eu precise apelar para jabás miraculosos. Prefácios do falecido professor André Setaro e do cineasta Eduardo Valente. Modéstia à parte, não conheço nada parecido na historiografia nacional.

Uma das razões para o blog estar parado há tanto tempo é o desânimo de não ver o meu melhor trabalho nas estantes das livrarias. Não vou ficar rica publicando um livro sobre cinema. Quero é encostar a cabeça no travesseiro e dormir com a certeza de que atingi o fim a que me propus. Quero ter a certeza de que o suor do meu trabalho não foi em vão. 

No livro, ofereço uma visão aprofundada dos muitos temas tratados aqui. A ética de uma autora que tenta o caminho correto, embora mais difícil. De uma autora que tenta se superar, livre de amarras ideológicas ou de qualquer outra coisa que não seja o prazer da sua escrita e da reflexão crítica e histórica. Pelo jeito, o preço que tenho a pagar por isso é bastante caro.

7 comentários:

Leonardo disse...

Não é possível!

Vou ver com as editoras aqui de Porto Alegre, quem sabe...

Adilson Marcelino disse...

Querida,
Reproduzo aqui o que postei na minha página do face.
Um beijo,
Adilson

SOBRE A GRANDE ANDREA ORMOND

Já disse por aqui várias vezes e volto a dizer mais uma vez:
- quem me acompanha por aqui sabe que os temas que mais me movem são a política, a imprensa. as minorais e a cultura popular.
Redigo isso para saudar e protestar ao mesmo tempo.
A saudação é por saber que Andrea Ormond,, amiga querida e pesquisadora de ponta do cinema brasileiro com seu indesviável blog Estranho Encontro está com um livro pronto.
Ora, nem é preciso lê-lo de antemão para saber que vem aí uma tremenda (adoro essa palavra) publicação com o traço fino, elegante e com reflexão de alta cepa de uma dos nossos melhores pesquisadores.
Andrea apresenta um olhar personalíssimo para o cinema brasileiro aliado a um texto saboroso, inteligente e original.
Seu olhar é generoso e por isso vê o cinema brasileiro como um todo, todo filme lhe desperta o interesse, e, acima de tudo, tem, nesse olhar, um espaço especial para o cinema popular - meu maior afeto.
Já o protesto é porque até agora ela não conseguiu uma editora.
É inacreditável esse estado de coisas. Esse descalabro só serve mesmo para revelar a inépcia, a inércia, a cegueira e a incompetência do nosso mundo oficial.
Precisamos desse livro urgentemente.
Andrea Ormond e seu Estranho Encontro sempre foram fundamentais para mim e para o meu site Mulheres do Cinema Brasileiro.
Além de me honrar com sua amizade, a generosidade que só quem é grande na pesquisa tem, ela também me honrou com uma entrevista em 2007.
Leiam e vejam se essa grande mulher, pesquisadora, crítica, escritora não é mesmo de utilidade pública para nosso país:
http://www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br/site/entrevistas_depoimentos/visualiza/118/Andrea-Ormond

Andrea Ormond disse...

Pra você ver, Leonardo. Quem sabe o mercado em Poa seja mais lúcido...

Adilson, obrigada. O respeito que eu tenho por você como pesquisador e o carinho que eu tenho por você como amigo são dois grandes presentes desses anos todos de estrada. Nós estamos vivendo tempos surreais. O trabalho duro fica em segundo plano e aí surge aquele circo das aparências. Colocar a mão na massa e criar uma enciclopédia como a sua, quem faz? O cinema brasileiro está sendo recontado por pessoas como eu, como você, mas existe uma miopia muito grande. Editora decidir que não vai publicar um livro sem sequer lê-lo chega a ser psicodélico. Um beijo, querido

Afranio Vital disse...

Estou retornando após 30 anos a repensar cinema. Primeiro fui ver o que foi feito nesse ínterim e tentar me familiarizar com novas linguagens, seus acertos e erros. O que ví foi assustador. Comecei a escrever o roteiro e sai da toca em busca de um viés para viabilidade do futuro projeto. O que constatei também foi assustador. Escrevo dez páginas reescrevo e paro. Paro e penso. Escrevo mais 10 páginas e paro. Penso: Valerá a pena honrar Khouri, Reichenbach, Christensen, Lima Barreto Miguel Borges e outros tantos. Ganhar dinheiro nesse país de analfabetos e incultos governados por redes medíocres de televisão, é muito fácil. Já ganhei dinheiro de mais do que prtecisava e queria. Hora penso que vale a pena, hora, que não. Este é o país da cobra grande e agora ela é cibernética e com múltiplas e infinitas cabeças. Nesse momento, acredito que vale a pena. O pior passei ao lado de Khouri e Christensen, sendo achincalhado e ridicularizado pelo cinema novo. Isso é o que resta da ironia, o prato que me servem nos meus 65 anos. Acredito que vale a pena pela memória deles e pela certeza que meu trabalho é honesto, feito com amor e sobretudo de uma sinceridade canina e quase ingênua. Vou continuar, vou tentar abrir uma brecha em qualquer canto, e quando encontrar um buraco eu entro. Não pergunto e entro e se possível arrombo-o ainda mais. No momento estou assim. Amanhã escrevrei mais dez páginas. Temos que lutar, acreditar e ir em frente não se pode esmorecer diante dessa idiotia quase total. Assim seu livro será editado. Para você mulher e intelectual e eu negro e cineasta , as coisas não seriam fáceis não é mesmo?

fabio fernandes disse...

já pensou em um esquema de crowdfunding para o seu livro (http://www.mauremkayna.com/crowdfunding-para-livros/)?

e por favor, não pare com o blog, rs

Carmelo Ribeiro disse...

Cara Andrea,

Desde que descobri o blog, só deixei de ler quando você parou de postar. Talvez, para poupar aborrecimentos o esquema de crowdfunding seja a saída. Se tentar essa forma de publicação, eu sou o primeiro da lista, de qualquer modo, parabéns pelo trabalho. Seus textos são de uma qualidade e, ao mesmo tempo, de uma leveza espantosas. Passei a ver mais filmes brasileiros por causa deles.

Andrea Ormond disse...

Afranio, há oito anos atrás nós entramos em contato e, pouco depois, entrevistei você para o blog. Foi um momento marcante, do tipo em que todas as idéias se encaixam, e em que pudemos compartilhar visões de mundo. O mais louco de tudo é ver como quiseram roubar o seu passado, na mão grande. Era como se você não existisse. A metáfora do "Homem Invisível", do Ralph Ellison. Foi necessário contextualizar você, através da entrevista e, posteriormente, da crítica do "Longa noite do prazer". Colocar você na trajetória do cinema brasileiro, com todas as consequências que essa contextualização traz. Na prática, é aquela velha conversa que a gente já teve outras vezes: negro cineasta e mulher intelectual são crimes hediondos no Brasil. Por incrível que (ainda) pareça, em pleno 2014.

Fabio e Carmelo, eu tenho até como editar o livro por meus próprios meios, mas quero uma editora que invista nele como um produto vendável, até mesmo por pragmatismo editorial. É um trabalho consciente, sério, para suprir buracos na historiografia, no debate crítico. Não me importo sequer com um lançamento de canapés e tapinhas nas costas. Quero o livro em uma prateleira, acessível a quem gostar da minha escrita e das minhas idéias.