segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Violência na Carne


Tateando o início da decadência cinematográfica na Boca do Lixo, “Violência na Carne” (1980), de Alfredo Sternheim, traz uma razão de ser parecida com a de outros filmes lançados na mesma onda. Grunhidos, pêlos, cenas quase ginecológicas, um tico de nada para o achado irreversível do explícito.

Entressafra dos 1980, achava-se que aquele seria um entreato, coisa breve. O sexo faturaria uns cobres, garantiria o acesso a obras “autorais”, livres na forma e no conteúdo. A pressão dos produtores era uma constante, fato inegável, mas em nada se comparou ao que surgiu em seguida, no apogeu de zoófilos, anões e outras traquitanas.

Sternheim havia dirigido recentemente “A Herança dos Devassos” (1979). Loucuras no financiamento – binacional, Brasil-Argentina –, alucinações da vedete
borderline, Sandra Bréa. Em “Corpo Devasso” (1980) – acreditem, o adjetivo “devasso” era campeão – aborda a homossexualidade masculina: tabu em que a Dacar, de David Cardoso, ousou mexer e provincianamente esquecer. O galã geralmente o omite no rol das nonchalances corajosas do passado.

Com essas duas fitas vizinhas na biografia, Sternheim chega ao “Violência na Carne”. Guerrilheiro cândido (Tércio), cáften (Paulão) e assaltante (Jorge) fogem de penitenciária desconhecida. Armas em punho, isolam um grupo de artistas em um bangalô, na beira da praia. Tudo deve durar até o dia seguinte, porque Tércio declama no
look condoreiro: “É que amanhã, 500 metros daqui, um barco estará nos levando para outro país. Para a liberdade total. Adeus, prisões. Adeus, medo. Adeus, sonhos. Adeus... pátria amada.”

Entre as prisioneiras, Letícia Simmons (Helena Ramos). Oportunidade rara de se conferir Helena Ramos com a voz que Deus lhe deu – via de regra, sofria na dublagem.

A começar pelo nome, Letícia Simmons tem fôlego de
starlet americana do time de Darryl Zanuck. Atriz, “não sabe quando atua ou quando fala a sério”, vive em depressão. Uma Gene Tierney que poderia nadar até o meio do lago em “Amar Foi Minha Ruína”, mas prefere as encucações de Malu Mulher, debatendo sobre o amor. Sabem como é, o amor. O verdadeiro amor. Tudo é consumismo e “o que estou fazendo na rua com essas pessoas”, poderia assobiar, imitando a canção de Evinha.

Letícia recebe um alento de Tércio. Apaixonam-se. Ali mesmo no cativeiro, psicologismo que o roteiro mal consegue descrever mas que acontece. Libertação. Libertação para ambos, cansados do mundo hipócrita, sem perspectivas. E a toda hora, dá-lhe Letícia falando sobre o amor.

O assassinato de Tércio por Letícia, o suicídio de Letícia: por um verdadeiro amor, para fugirem do sofrimento, para alcançarem a paz. Estratégia que teria outra dimensão e acerto se houvesse credibilidade no namoro dos dois. Algo que evanesce e não atinge o alvo. Semelhante a assistirmos a um presidiário com marca de sol (Jorge), revelada no
skinny dipping pelas redondezas.

Sternheim demonstra cuidados ocasionais na composição, como no pequeno prólogo. Paulo, Jorge e Tércio queimam um carro encharcado de gasolina. As chamas, a fumaça subindo para o céu, promessa de uma escuridão anterior, fatalismo para o que vai ser contado.

“Violência na Carne” amarra, inseguro, um enredo que aponta para a tal violência e para a tal da carne, sem resultados convincentes do cinema de um e de outro gênero. A violência carece da montagem – fria, de Jair Garcia Duarte, parceiro de Juan Bajon –; carece da engenharia dos planos – convencionais, previsíveis.

A carne segue o mesmo princípio. Estupros que dão bocejos no público acostumado aos
exploitations hardcore que começavam a estalar nos poeiras. Os arroubos podem ter provocado algum calor, mas a curiosidade permanece no quesito – este sim interessante, de novo – da intimidade dos casais gay e lésbico. Tratada com a naturalidade necessária, soma uns pontos no polaróide em que todo filme acaba se transformando, no cair do tempo.

Carinhos, ciúmes, postura protetora de uma com outra – Sandra e Ana. Dançarino (Fábio) orgulhoso da carreira do protetor (Renato, Luiz Carlos Braga). Mimos afins, nuances de cotidiano e que na hora de o bicho pegar fogo não somem, continuam. Seria cômodo para o diretor colocar apenas as meninas sendo atormentadas pelos agressores. Encaixa, porém, a curra em Fábio, a pegação de Sandra e Ana ordenada por Paulo, o voyeurismo que sai às claras, varrido do tapete.

O problema é que a deixa para entrar no desfiladeiro é jogada fora por um excesso de didatismo – “estes sustos, estes pesadelos, ocorrem devido a um sentimento de culpa. Intimamente você ainda não aceitou a nossa relação.” Piora muito, mas muito mesmo, na atuação precária dos atores, resguardada sempre a figura de Luiz Carlos Braga – por sinal, apaixonado por David Cardoso em “As Seis Mulheres de Adão”.

Ao invés do escracho que reina em “Adão” ou de uma ofensiva corporal bombástica e teorizável, “Violência na Carne” tenta se levar na dureza, filosofando como a estudante de sociologia da USP. E o que seria crível ou encantamento, ganha um contorno metódico, cambaleante, impedindo a fluência que poderia tê-lo salvado.

(in Zingu! #42, fevereiro de 2011)

5 comentários:

Fofão disse...

Essa coisa das falas declamadas é o que mais tira a credibilidade do filme. Acho que era resultado da tentativa de misturar crítica político-social com pornochanchada, sem falar que os elencos, em grande medida desabituados dessas falas mais "elaboradas".

Mas é perdoável para a época. Duro é ter que aguentar o mesmo problema nos filmes do Sérgio Rezende, em que os personagens discursam o tempo inteiro (lembram "Zuzu Angel"?)

Bom, Andrea, já que no seu blog o pessoal pede resenha do mesmo jeito que a gente pedia música em rádio AM nos anos 80, que tal "Brisas do Amor" (a.k.a. "O insaciável desejo da carne" - alguém imaginaria um mesmo filme com esses dois títulos?)? É um dos meus preferidos do Sternhein. O dramalhão romântico, sim, deu muito certo com a tal da "carne".

Andrea Ormond disse...

É uma forçação de barra muito grande, Fofão. Os diálogos ficam quadrados, os atores muitas vezes nem sabem do que estão falando. Uma cartilha para ser sério e dizer coisas supostamente profundas. O problema é que aquela era a hora e o lugar da originalidade, de ser visceral. É só lembrar do Mojica, do Garrett.

Nem me fale do "Zuzu Angel" rsrsrs Do Rezende eu fico com o "O Sonho Não Acabou", pelo menos havia uma ingenuidade ali.

Sugestão anotadíssima, trarei o filme para o dial deste blog.

alfredo sternheim disse...

Vamos ver se agora vai. Andrea, independente da tua opinião exposta com a tua habitual elegância e certo sarcasmo, apenas protesto com um pecado que nenhum crítico de cinema deve cometer: entregar o epílogo. Você o fez, um epílogo corajoso para o cinema da Boca e para a época. Beijos e admiração.

Andrea Ormond disse...

Conseguiu postar o comentário, Alfredo, agora foi. Contar o epílogo pode ser estratégico, para realçar a obra e atingir algo ainda maior: a circulação de idéias, a revisão que as tira do esquecimento. Se o processo exige coragem, vamos a ela. Beijos, a admiração é recíproca.

Karo Osaka disse...

Até a cena do strip-tease forçado eu achei que estaria diante do ATRÁS DA PORTA VERDE brasileiro, mas isso não aconteceu. A violência ficou em segundo plano e cenas ousadas parecem cortadas. O "violento" é aquele tal de Jorge, que nem liga para questões pessoais, pois para ele aquelas mulheres são como gado que ele envia para o abate. É justamente o Jorge quem segura as pontas numa atuação que causa raiva e que torna impossível qualquer identificação com ele. Jorge é violento e egoísta. Não está nem aí. A cena mais violenta, quando ele mata uma mulher loira na praia, não tem o impacto sexual necessário. A cena da sodomia da "novinha" dura poucos segundos e aquela música chata acaba amenizando a dor que ela sofreu durante a violência. A violência foi pouco ousada e o final poderia ter sido heroico, com o guerrilheiro matando seus comparsas para defender os reféns da morte certa, pois que a violência estaria num crescendo, saindo do sexo e entrando no sadismo. Façam um remake.